Estou numa crise, ou melhor, posso dizer que estou numa “solução”, porque gosto de ver o copo meio cheio.
Me dei conta que sobre meus ombros começam a pesar as estrepolias que vim fazendo até aqui. Mudanças, mudanças e mais mudanças. E isso não mudou. O que mudou (ou está mudando) foi a percepção que estou tendo de mim mesma. Há pouco tempo tenho visto e encontrado o meu reflexo no espelho.
Essa guinada, meio reprimida, já estava borbulhando aqui dentro. E bum! Um gêiser saltou para fora liberando aquela energia condensada. Parecia a morte, mas o doutor reiterou que se tratava somente de um pico de estresse. Eu não duvidei, mas tenho para mim que foi quase morte, e foi um sinal.
Entendi que tinha que exercitar o que tinha ficado atrofiado, ou seja, tudo! Do dedão do pé aos fios de cabelo, passando pelos neurônios, coração e pulmões.
Eu esquecia de respirar. Eu já não sabia mais nada.
Então comecei a fazer exercícios físicos leves e me propus a ler mais, a estudar e a buscar uma concentração que eu nunca tive.
***
Não sei por que raios me veio em mente o termo “balzaquiana”. Eu tinha mais ou menos a ideia do que era e achei que poderia me identificar, talvez eu esteja ali naquela idade retratada pelo Balzac. Quero saber mais.
Procurei rapidamente na Wikipedia:
“Em A Mulher de Trinta Anos, Balzac faz uma apologia às mulheres de mais idade que, emocionalmente amadurecidas, podem viver o amor com maior plenitude – em completa oposição à tradicional e predominante figura das moças românticas que, nos livros de sua época, tinham não mais do que 20 e poucos anos. Júlia d`Àiglemont, a protagonista do livro, é o grande retrato da mulher mal casada que, após anos de infelicidade, encontra seu verdadeiro amor – no caso, Carlos Vandenesse – somente após ter completado 30 anos.”
Li essa definição, achei bacana! Fui procurar o livro “A mulher de trinta anos”. Foi difícil de achar, porque aqui na Itália não há novas edições. Achei um exemplar usado, por 5 euros! Melhor ainda!
Daí, quando a esmola é demais, o santo desconfia.
Comecei a ler, ok, legal. O início parecia um filme de época francês, onde a cena inicial demora uns 5 minutos, só com cavalos passando pra lá e pra cá, mocinhas que sorriem, jardins impecáveis, muitos mordomos, vestidinhos claros, rendinhas, fitas.
O romance é constituído de seis partes. A primeira parte é bem longa e a partir da segunda parte, comecei a pensar que estava tendo problemas para entender o livro. Leio, releio. Sabe quando você começa a ler uma frase e quando termina percebe que esqueceu tudo o que leu anteriormente? Pensei que eu pudesse estar muito distraída, com problemas para me concentrar.
A cada novo trecho, tinha que voltar umas páginas para fixar o que tinha acontecido e tentar fazer a conexão com o que estava por vir. O problema é que não estava dando match na leitura. Gente, será que eu sou tão ruim assim para ler? Meu cérebro está ruim mesmo, pobre de mim.
Claro que comecei a ficar meio chateada. Poxa, estou lendo Balzac, um livro que a Wikipedia me informou que era um dos mais populares dele, e não estou gostando! É por isso que volta e meia encontro refúgio no Paulo Coelho, assim não dá!
Bem, mas não desisti. Fui até o fim. De filme histórico, passei a achar que estava assistindo uma novelinha das 6. Comecei a ler com menos atenção e deixei para lá se não estava entendendo direito. Ainda bem que era fino, 201 páginas, foi a minha motivação.
Terminada a leitura, dei uma olhada de novo na internet para entender mais aquela minha sensação de desilusão.
E na mesma Wikipedia, eu li:
Segundo Paulo Rónai, “esse conjunto de seis episódios disparatados, mal reunidos entre si e rematados por uma conclusão melodramática, é mais apropriado a enfastiar o leitor do que a fazê-lo procurar outras obras do romancista.”
Hahaha, essa é boa! Paolo Rónai simplesmente escreve o prefácio da obra e dá uma dessas. Dou um suspiro, aliviada. Eu estava certa, aquela leitura estava ruim mesmo, não foi só uma sensação, foi uma análise acertada. Mas é verdade também que o livro se tornou um dos mais populares de Honoré Balzac.
Nem tudo o que é popular tem qualidade garantida. #FICAADICA
Então, continuo estudando. Esse é um ótimo exercício para ser mais segura das minhas convicções.
Conhecer a si mesmo é importante, some-se a esse esforço conhecer com mais profundidade temas que te interessam. Assim será mais fácil identificar e cultivar uma paixão.

Título em francês, português e italiano:
FR: La Femme de trente ans
IT: La trentenne
Autor: Honoré de Balzac
Data em que foi escrito: entre 1829 e 1842
Gênero: Romance


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