Qual é a primeira coisa que você faz ao abrir os olhos de manhã?
Abro os olhos mas a realidade me cega, tudo é escuro. Preciso de luz. O relógio é o celular. Quero saber que horas são, mas acabo vendo as notificações. Minha curiosidade me mata! Ainda tenho algumas horas para dormir. Como vou dormir de novo sem saber o que aconteceu? É só uma olhadinha, desbloqueio a tela e mergulho num poço sem fim.
Daqui 20 minutos o alarme toca, agora é sério, vai, dorme logo. Fecho os olhos e sinto meu coração pulsando fora de ritmo. Depois de muita resistência, relaxo um pouquinho. De repente, ele desperta, estou morta.
Vou ao banheiro. Espera, esqueci o celular. Me acompanha nas minhas necessidades mais básicas e, também, durante aquelas mais fúteis. Meu Tamagotchi, mas ele é quem cuida de mim, controla minha saúde, conta meus passos, meus batimentos. Me segue. Longe dele, perco a minha sombra, como Peter Pan me descolo do mundo e posso até ser livre, como antes. Que medo! Como era a vida sem ele? Insegura? Triste? Chata? Vazia? E agora com ele, como é? Ansiosa? Acelerada? Inútil? Mentirosa?
Por que acabamos gostando mais de nos ver através da tela do que pessoalmente, olho no olho? O brilho das telas nos encanta, assim como o espelhinho reluzente encantou os nativos e os comprou. Nossos celulares são nossos espelhinhos pessoais, nos amarram e nos condenam a uma escravidão digital. Brilhamos dentro das telas e nos escondemos atrás delas, tudo ao mesmo tempo. Espelhinhos que não refletem a realidade, mas que nos tragam para um mundo de fantasias infinito, divertido, estimulante.
Como é difícil encarar a realidade. Se pudesse, faltava à aula. Se pudesse, dava o cano no trabalho. Se pudesse, não sairia da cama. É tão bom ficar só com nós mesmos, sem dar satisfação a ninguém. E, ao mesmo tempo, quanta solidão ao enfrentarmos longos silêncios. A tela nos dá o aconchego da convivência, sem os riscos da aproximação da vida real. Se eu não gostar, arrasto pra cima, e some.
Com tantos estímulos estamos desaprendendo tudo. É difícil ler, é chato pensar, mais complicado ainda, escrever. É tudo minúsculo. Não é verdade, aprendemos, sim, a ser artistas, apresentadores, atores, maquiadores, iluminadores, imitadores, enganadores. Quanto talento para fantasia! Quanto talento para continuarmos a viver uma infância eterna. Como era bom ser criança. Não víamos os riscos, gargalhávamos do mesmo jeito que chorávamos, nos vestíamos com as roupas dos pais, dos avós, falávamos não o tempo todo, éramos livremente vigiados.
Talvez tenhamos descoberto que permanecer na caverna, vendo a projeção das sombras, de costas para a saída, seja mais seguro. Temos o fogo que nos aquece, um teto que nos protege. E se voltássemos a ser crianças? E se voltássemos para o útero materno? E se nao existíssemos?

