Hoje li numa crônica: sem sair de casa, perdem-se mil possibilidades.
Eu não quero sair. Não quero nenhuma possibilidade. Quero a imobilidade, quero me torturar, ficando presa em mim. Achei que, me obrigando a estar comigo, eu conseguiria produzir alguma obra prima, que eu poderia ficar em forma, fazendo muita ginástica, que iria terminar meu livro que nunca comecei, que pintaria um quadro à la Picasso, mesmo sendo canhota e desengonçada; que comporia uma canção que viria a ser o estandarte de um novo movimento artístico tão importante quanto o saudoso Tropicalismo; que eu teria enfornado tantos pães, multigrãos, recheados, doces e de longa fermentação; que eu colocaria em ordem a papelada, adiantaria meus trâmites burocráticos, lavaria e passaria toda a roupa acumulada, e que a casa ficaria um brinco; eu até me imaginei andando por aí, olhando as vitrines, checando as últimas novidades na praça, tomando um café enquanto mandava um e-mail importante com o meu laptop. Me imaginei, com meu dom de observação, ouvindo fragmentos de conversas alheias e captando o momento clou que teria servido de inspiração para o meu primeiro grande roteiro, que ficaria guardado na gaveta, mofando.
A imobilidade é um looping, é um escorrimento natural para o abismo, a força da gravidade é quase invencível. No final, ela é invencível mesmo. Quanto mais imóvel, mais imobilidade, quanto menos fala, menos palavras, quanto menos sons, menos canções, quanto menos vida, mais morte. Quanto menos realidade, mais ficção, alucinações e agonias.
O meu escorrimento em direção ao nada tinha prazo para acabar, uma semana, apenas. Em cinco dias dentro de casa, testei o limite do meu abismo, sabia que não ia cair, afinal, já tinha um dia marcado para o recomeço. Foi um período de sofrimento apático em que, ao mesmo, tempo pude constatar um grande prazer na imobilidade. Como é bom ficar deitado. A imobilidade é econômica, há sempre menos vontade de sair, menos vontade de comer, menos vontade de acordar, menos vontade, o estômago se adapta e contrai, enrijece. Não quero me entreter para passar o tempo. Deixo, bondosamente, o tempo passar por mim; vai, pode passar, eu não te impeço, fique à vontade. E ele não dá a mínima. Ninguém dá a mínima.
Durante uma semana, dentro de casa, sem sair, pela primeira vez em tantos anos, nenhuma ideia fermentou, não produzi nada, nem mofo.

