Na semana passada descobri um erro meu no trabalho; uma distração me fez deixar de digitar um número e o total de produtos tinha sido inserido errado no sistema. Ao descobrir, fiquei roxa, engoli em seco aquela minha falha. Fiquei branca. Comecei a pensar em como admitir a situação aos colegas para poder corrigi-la em paz. Pensei em corrigir o total sem avisar ninguém, mas tive medo de perceberem a discrepância e acabarem me pegando na omissão do erro.
Voltei para casa sem dizer nada a ninguém e sem fazer a correção. Passei a noite remoendo aquele problema. Como eu pude ser capaz de errar e como vou sair dessa? Com que cara vou olhar para os outros. Falhei, não estive à altura.
A noite foi longa, sentia o coração apertado, os nervos e músculos contraírem e o estômago queimar. Tudo causado pelo suposto embaraço pelo qual eu teria que passar no dia seguinte. Eu não conseguiria esconder aquilo por muito tempo.
Me preparei para encarar a realidade e, durante o café da manhã, conversei comigo em pensamentos, como se estivesse ensaiando um jeito de dar a minha desculpa.
Pensei em fazer o tipo dramática e colocar a culpa no cosmos, em alguém mais, pensei em fingir irritação, como se um fantasma tivesse aparecido e pregado aquela peça em mim. É um absurdo! Vejam! Tem um número diferente aqui hoje! Como é que isso aconteceu?! Quem foi o incompetente que não percebeu a diferença! Agora terei que agir para recuperar tudo e salvar a produção, mas deixem comigo, eu resolvo!
Chegando no trabalho, logo de manhã, pensei melhor e não tive coragem de rodar a baiana, não é do meu feitio e achei que acabaria me saindo como uma canastrona mentirosa.
Para não alongar ainda mais o sofrimento, chamei o meu colega e confessei o ocorrido: tenho que te falar uma coisa, não percebi e digitei mal aquele número, agora precisamos refazer as contas. Ele me disse: está bem, não tem problema, mais tarde refazemos as contas.
Ufa! Fiz o mesmo com a outra colega e a outra, fui aos poucos me libertando daquele mal imenso que me atormentava desde o dia anterior.
Agora está tudo sob controle de novo. Até o próximo desvio. Tomara que não!
Voltando para casa, comecei a imaginar como pessoas corruptas conseguem viver, e até respirar em paz? Eu já estava pensando em pedir demissão por ter errado, sem querer, um número, pelo simples fato de não suportar a vergonha do erro.
Como é possível que um político, eleito com o voto de milhões e milhões de pessoas, que depositaram nele tantas expectativas, que acreditaram que ele realmente pudesse fazer algo de bom para elas, que deveria cumprir suas promessas, como é possível que esse servidor público consiga roubá-las, enganá-las, que contribua diariamente para a destruição do próprio país sem nenhum remorso, sem sentir nenhuma gastrite? Nenhuma desinteria? De que matéria esses corruptos crônicos são feitos? Eles são completamente burros? Eles não percebem o estrago que provocam cometendo desvios voluntariamente? Eles acham que nada acontecerá? Quando forem pegos, não terão medo dos julgamentos alheios? Acham mesmo que o crime compensa? Talvez não sejam seres humanos, talvez sejam bichos de outra espécie, predadores, roedores, ratos de esgoto.
Me tranquilizei em perceber que não sou dessa laia, mas me espanta o cinismo com que agem, a fome de poder que eles têm. Vermes simplesmente se alimentam, enchem a barriga, são cegos, não diferenciam a luz da escuridão, são completamente indiferentes ao cadáver.

